A GOTA

Ela era a gota de suor que pinga na testa em um dia ensolarado de férias de verão com a família na infância.

Ela era uma frase longa como essa que se foi, mas não por ser tediosa, mas por não querer ter fim.

Ela era um dicionário nunca publicado por ter excesso de palavras e falta do que dizer.

Ela era um pôr do sol em uma ilha deserta, e seu sonho era se contentar com isso, ser bonita sem plateia e não achar isso um desperdício, mas sim um segredo confiado a ela. Ela mantinha o portão da sua casa destrancado e dizia que era porque almejava a liberdade até na sua forma mais inútil, não queria ter que depender de procedimentos como abrir e fechar.

Ela fazia da insônia um ritual com hora marcada, e todas as noites, vigiava despretensiosamente seu portão. A verdade é que ela não o trancava pois seu medo de esquecer a chave era muito maior do que seu medo de ser invadida.Mesmo que jurasse o contrário, ela confiava nos outros muito mais do que em si mesma.

Para alguém que prezava tanto por sua liberdade fraudulenta, secretamente, ela sentia um alívio enorme em ser definida, e por isso sei que ela adoraria ler esse texto sobre ela.Porém, sinto que quanto mais eu a descrevo, mais a sua essência se esconde, e para ser sincera, o que eu amava nela era transparente.

Era sem cor e sem luz, não como o escuro, mas como o momento em que eu nasci.

Em todos meus sonhos, eu a encontro, faço promessas que não lembro, e quando acordo, as cumpro sem saber.

Sei que esse texto é uma delas.

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