HISTÓRIA PARA DORMIR
Carrego a inspiração em minhas costas. Não sei identificar seu peso, nem sua forma. Talvez eu tenha asas. Talvez ela que me carregue.
Ontem eu me contei uma história para dormir. Não funcionou. Em vez de deixar a história me embalar, eu é que levei o sono para ela. Todos dormiam; só eu fiquei acordada, imaginando o que os moradores daquela cidade faziam quando acordados. Chamo de moradores porque não tinham nome. Tudo o que eu sabia é que moravam ali.
Sabia também que eles nunca tinham visto o sol e, por isso, ninguém tinha medo do escuro. Não tenho certeza, na verdade. Não pude perguntar. Como disse, todos dormiam.
A cidade era iluminada por velas. Todos os moradores tinham cicatrizes de queimaduras severas. Imagino que seja porque brincavam com o fogo desde muito jovens. As ruas eram repletas de cinzas. Sinto saber o motivo de eles não as limparem.
Ninguém acreditava no sol, mas falavam sobre sua existência. Eu imagino.