O contexto é um vício

O contexto é a corrupção do sentido verdadeiro. Um espião infiltrado na verdade.

Convivo com ele o tempo todo, acordada. Mesmo assim, é só quando sonho que não sinto sua falta.

O contexto é a corrupção do sentido verdadeiro. E a cada repetição acredito um pouco menos no que digo. O desgaste sustenta a frase e a esvazia. Então: devo expulsá-lo daqui. Eis um acontecimento sem contexto: Deus e eu nos encontramos para dividir a culpa.

Qual culpa? Quando, onde, por quê? Vou contar agora porque, mesmo que eu o rejeite, o contexto é um vício.
Por isso opto, sem escolha, pela fidelidade.. Coceira desgraçada: coço sabendo que vai piorar. Mesmo assim, saboreio o alívio. Dura pouco. E eu coço de novo. Pronto.

Nem terminei de prometer que não contaria o contexto e já sinto culpa por falhar no que disse que faria. Mas se a culpa fosse poderosa o suficiente, o mundo teria menos igrejas e bares. Beber é uma vaidade da culpa. Rezar corre o risco de ser também.

Meu encontro aconteceu na sala de estar, enquanto minha vó emprestava a boca a Deus e lia a Bíblia para mim. “Onde você estava?”, Deus pergunta a Jó. Essa pergunta o raptou para dentro de mim e virou a resposta que me puxou junto. Lá, ele me culpou por eu não tê-lo acompanhado nos instantes antes da minha concepção; e, sem querer, deixou a própria culpa aparecer. Eu o perdoei por não saber. “Eu também não sei”, eu disse, num desespero sem urgência. “Me desculpa”, eu pensei, sem coragem de dizer, com medo de que, se eu dissesse, ele se lembrasse de quem era. E sumisse.

“…quando lancei os fundamentos da terra?”, ouvi minha vó terminar, de longe. Quando olhei para o lado, ele estava lá em cima. Quando olhei para cima, ele já não estava dentro de mim. Quando olhei para frente, vi novamente a sala de estar.

Não sou íntima da retórica divina e, por isso, precisei esperar o fim da frase para entender: aquilo não era uma pergunta, mas um argumento e, por isso, não poderia ter sido a resposta que ouvi. O contexto é a corrupção do sentido verdadeiro. Repito como uma oração refém da minha vaidade.

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